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Foi com imensa tristeza que, numa manhã cinzenta, aquela mãe despedia-se de seu filho, com o coração dilacerado e a alma despedaçada... Lágrimas caiam sem parar e seu filho, na inocência dos seus seis ou sete anos de idade, não conseguia entender os motivos de tamanha tristeza...
A avó, que presenciava a cena, prometia à sua filha que cuidaria do neto com todo o amor e carinho e que ela retornasse à cidade grande, juntamente com o seu marido para que, juntos, pudessem lutar por uma vida melhor.
E assim, aquela vovozinha com seu corpo pequenino e frágil, vivendo naquela humilde casa, no pequeno vilarejo ao sul do Japão, se esforçava ao máximo para que o seu netinho não percebesse a condição miserável em que se encontravam.
Todos os dias, ao levantar-se juntamente com os primeiros raios de sol, preparava com todo esmero e carinho o café da manhã de seu netinho: uma xícara de chá verde.
O chá verde fumegante era servido numa xícara que, apesar de velha e trincada era como se fosse a mais fina das porcelanas e a mesa de madeira, rachada e desgastada pelo tempo, era como se fosse a própria mesa do Imperador, enfeitada com flores que a boa velhinha colhia todos os dias, pela manhã, à beira do riacho.
Era com alegria que acordava seu neto e pedia-lhe que se sentasse à mesa para fazer o seu desjejum:
- Meu querido netinho, o dia hoje está maravilhoso! Sente-se à mesa e sirva-se com este delicioso café da manhã!!
O netinho, percebendo a alegria da avó, sorvia aquele chá com apetite, acreditando, de fato, ser o melhor café da manhã que alguém poderia ter e se contagiava com aquele sorriso que todas as manhãs e todos os dias, a vovó lhe dedicava.
E assim, o dia transcorria... O netinho ia para a escola e a vovozinha buscava no riacho o alimento para o almoço, “pescando” restos de legumes que desciam pelas águas.
Cacarecos de ferro e latas velhas eram amarrados em uma cordinha e a boa velhinha entregava ao seu neto aquele brinquedo, dizendo-lhe que eram carrinhos que ela havia feito para ele. O neto, puxando os carrinhos pela cordinha, brincava animadamente e feliz.
O almoço, na maioria das vezes, se resumia em uma pequena porção de arroz branco e alguns pedaços de legumes em conserva e, como sempre, era servido em grande estilo, com mesa enfeitada e o sorriso da vovó que dizia:
_ Olha só, meu netinho, que refeição farta e deliciosa temos hoje para o almoço!!!
E o neto degustava aquela refeição com gosto e alegria pensando ser, de fato, um banquete Real.
Certo dia, numa festa realizada pela escola, na qual pais e alunos participavam de gincanas e levavam lanche para o pic-nic, o pequeno menino estava triste, pois todos os pais estavam presentes, brincando alegremente com seus filhos e comendo deliciosas guloseimas. Somente seus pais não estavam e o lanche que a avó carinhosamente havia lhe mandado era, como sempre, uma porção de arroz branco e legumes em conserva.
O garoto, admirando aquela cena feliz entre pais e filhos e lamentando a ausência de sua querida mãe e querido pai, retirou-se com os olhos marejados em lágrimas e foi fazer sua refeição em uma sala de aula, onde não havia ninguém.
Um professor, ao passar por acaso pelo corredor, avistou o menino na sala de aula, cabisbaixo, prestes a fazer a sua refeição e, aproximando-se dele, disse:
_ Ei garoto, por que você está sozinho aqui nesta sala e, não lá fora, lanchando junto à sua família?
O menino respondeu-lhe que não morava com seus pais, apenas com sua vovozinha e que, esta, não pudera comparecer e, por isso é que estava tão triste e viera almoçar sozinho na sala.
O professor, comovido, ao ouvir a história do garoto e vendo a comida simples que a avó lhe mandara, de repente teve uma idéia e, aproximando-se dele disse:
_ Hum, sabe... eu não sei por que, mas de repente me deu uma dor de estômago... não tenho apetite... Acho que não vou querer almoçar... Ah, já sei! Vamos trocar nossa comida?
O menino, assustado e surpreso achou que não haveria mal nenhum em aceitar.
E, ao abrir a marmita oferecida pelo professor, seus pequeninos olhos brilharam, maravilhados com aquela comida farta e deliciosa!
_ Professor, é a primeira vez que vejo tanta comida gostosa e tão cheirosa assim!!
E, cheio de apetite, o menino deliciou-se com aquela refeição saborosa que nunca havia provado antes...
O professor, ao presenciar aquela cena, retirou-se devagar da sala, enxugando as lágrimas que já teimavam em embaçar-lhe a visão.
Ao voltar para casa, o netinho, muito entusiasmado, narrou o que acontecera naquele dia à sua querida vovó. A velhinha, ao escutar o menino, percebeu as intenções da atitude daquele professor e, profundamente emocionada agradecia intimamente aquele ato de extrema bondade. Com a voz embargada, dizia ao neto que se sentia feliz por ele ter experimentado coisas tão apetitosas!
Passado algum tempo, novamente a escola promovia mais uma festa e, mais uma vez, o menino sentia-se triste por não ter a companhia dos pais e nem a comida deliciosa que todos traziam e que era saboreada animadamente ao ar livre debaixo das floridas árvores de cerejeira.
Suspirando fundo, abriu a marmita feita carinhosamente pela avó, quando sentiu alguém atrás de si. Era sua professora que, ciente da humilde condição do menino, pousou as mãos na barriga e disse-lhe:
_ Hum, sabe, de repente me deu uma dor no estômago, não tenho apetite... Acho que não vou querer minha comida, vamos trocar nossa marmita?
O garoto, apesar de estranhar aquela atitude que já lhe era familiar, novamente, não achou mal em aceitar.
E, mais uma vez, ao abrir a marmita de sua professora, seus pequeninos olhos se deliciaram com toda aquela fartura e, assim, muito feliz, saboreou com apetite aquela comida.
Chegando em casa, mais uma vez contou à sua querida vovó o fato ocorrido e desconfiado, acrescentou:
_ Vovó, eu não sei, mas achei tão estranho... desta vez foi a professora que sentiu dor no estômago e quis trocar a sua marmita comigo...
A boa velhinha, controlando a emoção, abraçou o seu netinho e, com o seu inconfundível sorriso, disse que seus professores eram pessoas muito especiais.
Somente hoje, após cinquenta anos, aquele menino que tivera o privilégio de ter vivido sua infância ao lado daquela adorável vovó, pôde entender os reais motivos da dor de barriga de seus professores, como também da humilde condição em que viviam, mas que sua avó fazia-o acreditar que não, demonstrando sempre um sorriso no rosto e alegria de viver.
E talvez seja por isto que, aquele menino que aprendeu a sorrir com sua avó, tenha se transformado hoje num dos maiores comediantes do Japão e que, ao relembrar daquele contagiante sorriso, olha para o céu e sente imensa saudade daquela maravilhosa vovozinha que o ensinou a ver somente o lado bom da vida...
* Esta é uma história verídica, de um comediante muito famoso da televisão japonesa. Sua vida foi apresentada em um programa de televisão japonesa e eu nunca consegui narrar esta história até o fim, pois a emoção é muito grande e as lágrimas, inevitáveis... Resolvi, então, colocar por meio da escrita, esta comovente história para que todos possam ter a capacidade de enfrentar os problemas da vida, sempre com um imenso sorriso, como o dessa encantadora vovó!
(By Regina)
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