
Uma das discussões maiores que envolvem o livro “O filho eterno”, de Cristóvão Tezza é quanto a sua classificação literária que se confunde em “romance” ou “autobiografia”.
Apesar de narrar sua própria história, o autor redige o texto em terceira pessoa, como se fosse assim, personagem de si próprio, narrado por outra pessoa.
Com uma franqueza, que às vezes, soa até muito cruel, Tezza revela com grande profundidade todas as suas angústias ao descobrir que seu filho é portador da síndrome de down.
Intercalando passagens de sua própria vida, o autor se mistura na tentativa de se encontrar, numa narrativa existencialista e reflexiva.
O livro é desprovido de sentimentalismo, no qual os críticos consideram ser piegas e, justamente por este motivo, conferem o grande mérito deste livro...
Uma questão interessante é que “O filho eterno” retrata o problema da síndrome de down pela visão masculina (aqui, no caso, do pai) que, muitas vezes é tida como sendo mais fria, porém, não menos desprovida de sentimento. Seria apenas um modo diferente de demonstrar o sentimento, ao contrário das mulheres, que geralmente são mais emocionais e possuem mais facilidade em demonstrá-lo...
O livro se torna especialmente emocionante da metade para o fim, quando o autor se rende e descobre que não pode mais viver sem a presença do filho que se torna, inclusive, seu grande companheiro na torcida fanática ao Clube Atlético Paranaense de futebol.
Algumas passagens do livro:
(...) “Há um início de preleção, quase religiosa, que ele, entontecido, não consegue ainda sintonizar senão em fragmentos da voz do pediatra:
- ... algumas características... sinais importantes... vamos descrever. Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, e a pálpebra oblíqua... o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro... achatamento da parte posterior do crânio... a hipotonia muscular... a baixa implantação da orelha e... (...)
(...) Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão “para sempre” – a idéia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar. Tudo pode ser recomeçado, mas agora não; tudo pode ser refeito, mas isso não; tudo pode voltar ao nada e se refazer, mas agora tudo é de uma solidez granítica e intransponível; o último limite, o da inocência, estava ultrapassado; (...)
(...) No momento em que enfim se volta para a cama, não há mais ninguém no quarto - só ele, a mulher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar para o filho. Sim - a alma ainda está cabeceando atrás de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pensamento como que foi deixando-o novamente em pé, ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele quase acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: como sempre, está sozinho. (...)
[Cristóvão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mas mudou-se para Curitiba ainda criança. É considerado um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea. Além de escritor, com mais de uma dezena de livros publicados, leciona na UFPR.
É autor, entre outros, de “Trapo”, “O Fantasma da infância”, “Aventuras provisórias”, “Breve espaço entre cor e sombra” (Prêmio Machado de Assis/Biblioteca Nacional de melhor romance de 1998) e “O fotógrafo” (Prêmios da Academia Brasileira de Letras e Bravo! De melhor romance do ano). “O filho eterno” foi escolhido o melhor livro do ano pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2008. Conquistou ainda o Portugal Telecom, o Jabuti de melhor romance do ano, o prêmio da Associação de Críticos de Arte de São Paulo (melhor obra de ficção) e o Bravo! (livro do ano). A trajetória surpreendeu o próprio autor.]
Para quem quiser conferir:
Livro: O filho eterno
Autor: Cristóvão Tezza
Editora: Record – 222 páginas
Site: cristovaotezza.com.br