quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Soneto sentimental à cidade de São Paulo




Ó cidade tão lírica e tão fria!




Mercenária, que importa - basta! importa




Que a noite, quando te repousas morta




Lenta e cruel te envolve uma agonia








Não te amo à luz plácida do dia




Amo-te quando a neblina te transporta




Nesse momento, amante, abres-me a porta




E eu te possuo nua e fugidia.








Sinto como a tua íris fosforeja




Entre um poema, um riso e uma cerveja




E que mal há se o lar onde se espera








Traz saudade de alguma Baviera




Se a poesia é tua, e em cada mesa




Há um pecador morrendo de beleza?








Vinícius de Moraes




(Dia 25 de janeiro de 1554 fundação da cidade de São Paulo. 458 anos! Parabéns!)








terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Soneto de separação





De repente o riso fez-se o pranto



Silencioso e branco como a bruma



E das bocas unidas fez-se a espuma



E das mãos espalmadas fez-se o espanto.




De repente da calma fez-se o vento



Que dos olhos desfez a última chama



E da paixão fez-se o pressentimento



E do momento imóvel fez o drama.




De repente, não mais que de repente



Fez-se de triste o que se fez amante



E de sozinho o que se fez contente.




Fez-se de amigo próximo o distante



Fez-se da vida uma aventura errante



De repente não mais que de repente.



(Vinícius de Moraes)

Bilhete



Se tu me amas, amas-me baixinho



Não o grites de cima dos telhados



Deixa em paz os passarinhos



Deixa em paz a mim!



Se me queres,



enfim,



tem de ser bem devagarinho, Amada,



que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...



(Mário Quintana)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Eu não existo sem você

.





Eu sei e você sabe, já que a vida quiz assim





Que nada nesse mundo levará você de mim





Eu sei e você sabe que a distância não existe





Que todo grande amor





Só é bem grande se for triste





Por isso, meu amor





Não tenha medo de sofrer





Que todos os caminhos





Me encaminham pra você









Assim como o oceano





Só é belo com o luar








Assim como a canção





Só tem razão se se cantar





Assim como uma nuvem





só acontece se chover





Assim como o poeta





Só é grande se sofrer





Assim como viver





sem teu amor não é viver





Não há você sem mim





Eu não existo em você.



(Vinícius de Moraes)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Soneto de Fidelidade




De tudo ao meu amor serei atento




Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto




Que mesmo em face do maior encanto




Dele se encante mais meu pensamento








Quero vivê-lo em cada vão momento




E em seu louvour hei de espalhar meu canto




E rir meu riso e derramar meu pranto




Ao seu pesar ou seu contentamento








E assim, quando mais tarde me procure




Quem sabe a morte, angústia de quem vive




Quem sabe a solidão, fim de quem ama








Eu possa me dizer do amor (que tive):




Que não seja imortal, posto que é chama




Mas que seja infinito enquanto dure.








(Vinícius de Moraes)




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Amor é fogo que arde sem se ver






Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente

É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade

É servir a quem vence o vencedor,

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade;

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

(Luis de Camões)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Casinha de palha



Eu moro numa casinha de palha



que fica detrás da muralha



daquela serra acolá



De longe ela nos parece arruinada



mas de perto ela é juncada



de baunilha e manacá



(Godofredo Guedes)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

sábado, 14 de janeiro de 2012

"As vezes fortes, as vezes nem tanto..."



"... Mas nem sempre é necessário tornar-se forte... Temos que respirar nossas fraquezas..."



(Clarice Lispector)