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domingo, 24 de julho de 2016

Poema de amor...



Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...

E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.

Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;

o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

(Cora Coralina)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Me beija de novo pela primeira vez...



Não me fala de paixão. Começa de novo, me descobre. Tenho cócegas nos pés e muitos medos nas mãos. Brinca com meus dedos. Me beija de novo pela primeira vez. Deixa meu corpo te esperar, leva minha paciência ao limite. Testa minha resistência que eu faço questão de perder.
Deixa eu ser bailarina para tua respiração. Acrobata na corda bamba do teu desejo. Escorre pelo ralo as expectativas. Silencia a rotina e deixa as intenções falarem. Deixa a textura da tua pele arrepiar. Me borra o batom, me despe de mim.
Que o calor das tuas mãos aqueça meu corpo e me deixe de alma leve. Me segura pela cintura e não me deixa fugir. Percorre minhas costas devagar. Liga meus pontos e descobre teu desenho. Faz do teu desejo meu suor.
Ri de ti e comigo. Cobre com lençol a falta de intimidade, deixar o sorriso mostrar o segredo mais guardado. Me olha de todos os ângulos e descobre meus sinais. Deixa eu bagunçar teu cabelo com carinho e com desejo. Te virar do avesso pra me encontrar.
Me serve um vinho, brinda o momento. Comemora o que nos tornamos, redescobre o que somos. Batuca para o meu samba, deixa que eu desafine por nós. Fala de nós com a certeza da eternidade e com a naturalidade da leveza.
Me dá uma noite intensa pra me lembrar que há uma história leve. Me lembra que o amor é renascimento e começa um novo capítulo.
(Marina Melz)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Urgentemente




É urgente o amor
É urgente um barco no mar...
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

(Eugênio de Andrade, in "Até amanhã")



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Tomara...





Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara 
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

(Vinícius de Moraes)


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Despedida




E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir;  foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval – uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito – depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado – sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras – com flores e cantos. O inverno – te lembras – nos maltratou; não havia flores, não havia mar e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver;  entretanto, é possível  que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas duradouras e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

(Rubem Braga)


(Extraído do livro “A traição das Elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83)

domingo, 4 de agosto de 2013

Um minuto




Desculpe te acordar tão cedo
Mas não dava pra esperar, precisava te ouvir
Saber que está bem, que tudo está bem.

Acordei com você em meu pensamento
E uma música que tocava no rádio 
Me fez perceber que está além do pensamento,
Vive em minha alma, me dando força.

Vivemos tantos dias que não passam de meras mentiras
Dias em que nada é o que realmente esperamos...

Mas me diga você, quantos dias esperou
Para que tudo isso seja deixado para trás

Esperei por mil vidas e mais alguns segundos
Somente para me sentir vivo
E eu percebi agora que o que me faz viver
Não é o ouro, nem as meras ilusões de uma vida
E, sim, o seu sorriso... 

Não poderia deixar
Mais um dia passar sem que você soubesse...

(Ivan Rodrigues)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O desaparecido





Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.



Rubem Braga

(Do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 112)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amor




"Você tem toda razão: é tudo vasto.
Essencialmente vasto.
Generosamente vasto...
Assustadoramente também
Inclusive o próprio amor
Que não tem limites
Que tudo pode curar
Que tudo pode abraçar
Que tudo pode transformar..."

(Ana Jácomo)

domingo, 28 de abril de 2013

Chance




Quando seu silêncio emudecer no meu,
E os dois acasalarem numa plenitude imoral,
É chegado o sinal de que nosso amor é bem possível.
Amar é tornar a quietude indivisível...

(Flora Figueiredo)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Canção de outono



Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

(Cecília Meirelles)

domingo, 15 de abril de 2012

Pai, a minha sombra és tu...


a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

(Jorge Reis Sá)

Pai, dois meses de muitas saudades... Te amo...

domingo, 1 de abril de 2012

Inochi...



"Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação." (Clarice Lispector)

terça-feira, 6 de março de 2012

Impressionista





Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.

Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

(Adélia Prado)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Amor é fogo que arde sem se ver






Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente

É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade

É servir a quem vence o vencedor,

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade;

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

(Luis de Camões)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"... o sol toda manhã faz um lindo espetáculo..."



" Quando fizeres algo nobre e belo e ninguém notar, não fique triste,



pois o sol toda manhã faz um lindo espetáculo e no entanto,



a maioria da platéia ainda dorme..."



(John Lennon)



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Versos



Versos! Versos! Sei lá o que são versos...

Pedaços de sorriso, branca espuma,

Gargalhadas de luz, cantos dispersos,

Ou pétalas que caem uma a uma...


Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,

Um verso é teu sorriso e os de Dante

Eram o seu amor a soluçar

Aos pés da sua estremecida amante!


Meus versos!... Sei eu lá também que são...

Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração

Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...


Meus soluços de dor que andam dispersos

Por este grande amor em que não crês!...


(Florbela Espanca)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Fumo




Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há nem rosas;


Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!


Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

Perdidos pelas noites invernososas...

Abertos, sonham mãos cariciosas,

Tuas mãos doces plenas de carinhos!


Os dias são Outonos: choram... choram...

Há crisântemos roxos que descoram...

Há murmúrios dolentes de segredos...


Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é! ó meu amor pelos espaços!
Fumo leve que foge entre os meus dedos...

(Florbela Espanca)

domingo, 17 de julho de 2011

Saudade...

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"... e me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas...

Dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero..."


(Caio Fernando Abreu)

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vem

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Escrúpulos?... Escrúpulos!... Tolice!...

Corre aos meus braços! Vem! Não tenhas pejo!
Traze o teu beijo ao encontro do meu beijo,
E deixa-os lá dizer que isto é doidice!

Não esperes o gelo da velhice,
Não sufoques o lúbrico desejo
Que nos teus olhos úmidos eu vejo!

Foges de mim?... Farias mal?... Quem disse?

Ora o dever! - o coração não deve!
O amor, se é verdadeiro, não ultraja
Nem mancha a fama embora alva de neve.

Vem!... que o sangue férvido reaja!
Amemo-nos, amor, que a vida é breve,
E outra vida melhor talvez não haja!



(Artur Azevedo - Antologia: Os cem melhores sonetos Brasileiros - Alberto de Oliveira - 1951 - 3ª edição.)

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